12.12.10

it gets better

melhora, sim:
é só dar tempo
ao tempo que tiram da gente
enquanto insultam,
espancam,
inundam as ruas de intolerância

eu sou eu
e minha sexualidade
- mas não só ela

faça-me o favor:
espalhe esta notícia;
nunca quis ser o último
(e o único!)
a saber de mim



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É para fazer coro à campanha www.thetrevorproject.org.

8.12.10

sal a desgosto

não tem receita
nem bula
para sarar o bolo de culpas
que se enovelam no estômago

remédio?
ingredientes em falta
para voltar atrás
_só há overdose de dores genéricas
e montantes de claras em neve

provocar vômitos
não cura
a intoxicação

esse modo de preparo
ninguém sabe mais
porque o bolo solou
e o prazo de validade
_escrito em letras minúsculas no vidro cheio de pílulas_
se apagou com o tempo

se arrependimento fosse doença,
eu seria, hoje, um paciente terminal
e faminto

odeio a comida que servem nos hospitais,
mas adoro o soro com que me alimentam na veia;
tem sal na medida

27.11.10

frágil mudança de valores como ovos expostos à queda ou por que ninguém me prova o contrário

troco um pedaço de doce de goiaba
por uma tirinha de Trident

troco brincar de inventar bichos com as nuvens
pelos Trending Topics do Twitter

troco uma tarde inteira deitado na beira do lago do Ibirapuera
por 3 minutos de uma casquinha da Mc Donald's

troco cheiro de suco de maracujá
por mil borrifadas de um bom Dolce & Gabanna pour Homme

troco as estrelas do camping da cidade de Socorro
por uma suíte de hotel 5 estrelas em Dubai

troco pés no chão
por tênis Nike

troco moringas de barro
por uma garrafa térmica Aladdin

troco cofre de porquinho
por conta corrente no Banco do Brasil

troco este estar só
por qualquer paixão capitalista

_e sincera na mesma medida

22.6.10

vinte e sete versos refeitos

há anos, venho tentando dissociar
a rima lapidada da força bruta de uma palavra:
uma reinvenção

faço aniversário quando, ao contrário da letra datilográfica,
tenho identidade, tenho nossa caligrafia - minha, sua -
em todos os cartões que recebi

a você, meu convite para
tomar alguns copos,
repartir um bolo recheado,
rever amigos de tanto tempo,
estender as horas além do trabalho,
rir de nossas complicadas histórias
à luz de velas atoladas em brigadeiro;
ao som de palmas, e não palmadas do tempo

marque na sua agenda o dia
cuja noite terá presenças calorosas
em meio a bexigas coloridas,
poltronas pé-palito,
garrafas de tubaína
e meus desejos retrô

desejos do menino-eu que não quer crescer ligeiro,
toma poucos cuidados antirrugas
e promete começar o tratamento contra a calvície
com a mesma verdade de quem inicia uma dieta na segunda-feira

por que este ano seria diferente?
porque, daqui para a frente,
só será refeito o vigésimo sétimo verso deste poema


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Dia 24/06, quinta-feira, a partir das 19h, no Tubaína Bar, estarei à sua espera. É um lugar com preço "quase-justo", ambiente agradável, comida gostosa e cheio de memórias afetivas. Fica na rua Haddock Lobo, 74, Centro - São Paulo, SP. Aceita cartão de crédito e não tem consumação mínima. Mesa reservada em meu nome. www.tubainabar.com.br


Confirme sua presença comentando aqui ou respondendo ao meu email!

30.5.10

true colors

metade é meta,
metade outra, mentira e mais um pouco.
tá?

vêm o movimento,
a nova onda,
a luta,
a cópula

tingida de technicolor
sobre um salto de ponta-firme:
ela; a cidade de São Paulo

"Your true colors
True colors are beautiful,
Like a rainbow",
cantemos!

Cindy é a tendência desta semana
na Avenida Paulista

9.5.10

Não deixe a preguiça de lado

Vamos brincar de jogo dos sete erros? Mas você não terá de comparar duas imagens, somente observar esta fotografia que fiz em Manaus, AM, no ano passado.

- Ok, ok, você já não aguenta mais as minhas fotos de Manaus. É que a viagem rendeu tanta coisa que só aqui é possível publicar com alguma - mesmo que nem sempre tanta - relevância.

Voltando ao jogo... existe um animal nesta foto que é maltratado por homens em sua própria casa, assediado por turistas que pagam para tê-lo em volta de seus braços lhes dando um "prazer tropical", move seu corpo com uma malemolência de parar o trânsito e tem unhas longas, perigosas se cravadas na pele. Não, não... não me refiro à mulher do barco, mas ao bicho-preguiça que ela carrega no dorso. É em referência a ele que eu gostaria que você, por um minuto, pensasse no máximo de erros que esta situação representa do ponto de vista socioambiental.

Um minuto!



OS ERROS

1. Expor um animal como o bicho-preguiça ao sol durante horas a fio sobre um barco em pleno Rio Negro. É um bicho que vive sob a sombra justamente para se proteger. Tem pelos por todo o corpo, o que aumenta sua sensação de calor. Raramente desce ao solo, somente para fazer as necessidades. Até para se reproduzir prefere as copas das árvores. Dorme cerca de 14 horas por dia! Por que é que foram levar o bicho para este barco? Tá acordado, se desidratando e morrendo de fome.

2. Não é um animal doméstico como um cachorrinho que você pode levar no colo, no dorso, na cabeça para lá e para cá. Repare na feição de prazer e satisfação do indivíduo que a manaura carrega no barco. É muito difícil se criar preguiça em cativeiro por conta dos hábitos alimentares bastante peculiares. Duvido que, diariamente, esta mulher pegue um bicho desses na árvore e o leve para passear um pouco. Deve ficar preso em uma coleirinha improvisada no quintal do arbusto que ela tem em casa.

3. Oferecer o animal para turistas se divertirem, tirando fotos dele e cobrando por isso é crime ambiental. Nem sei como enquadrar isso. Mas dá cana! E o pior é o cara que fomenta a prática. Se você já fez isso, envergonhe-se e não saia mostrando sua foto "heroica" por aí como um troféu.

4. Se o barco, por algum acidente, virasse, quais seriam as chances de alguém tentar salvar o bicho? Fora que eles carregavam também jiboias, sucuris e outras cobras "exóticas" na mesma embarcação. Se virasse, duvido que eles não se borrariam de uma delas enroscar em seus pescoços. Eu disse "eles" porque havia um homem no barco também.

5. E quem fiscaliza isso, meu Deus? Só vistas grossas para o evento. Quando eu estava lá, no mínimo, três barcos se aproximaram do meu para mostrar jacarés, preguiças, cobras...

6. Os humanos que estão no barco não têm educação. Mas têm alternativas de trabalho também? Vai saber... Onde está a educação ambiental promovida pelo Estado do Amazonas? Eles só usam o dinheiro arrecadado para manter o famoso Teatro do centro da cidade bonito e para pagar o ar condicionado que ele consome?

7. O sétimo erro vou deixar por sua conta para permitir a nossa interação. Adoraria receber um comentário seu sobre o assunto. Ah, comenta, vai. E deixa de preguiça! Mas não deixe o bicho de lado para não virar assunto do Colheita Seletiva.

oito centímetros

da luz de fora
a silhueta era
sua;
a contemplação matutina
foi meu desjejum,
vejo vales no seu rosto
quando acordo
e grito do lado de cá:

"eco"
-
"eco"

- há resposta

minha questão crucial:
qual será a maior distância entre nós
de agora em diante?

quero que sejam somente esses oito centímetros bobos

2.5.10

Improvise, reaproveite e impressione



Tenho ficado meio paranoico com uma brincadeira bem gostosa: reaproveitar o máximo de coisas que seriam descartadas e que que ainda guardam em si uma potência de ser algo novamente, ter um novo papel no cotidiano.

Como assim?

Recebo muitos convites, materiais de divulgação, press kits, revistas etc. todos os dias tendo como remetentes as assessorias de comunicação e seus clientes por causa do meu trabalho. A maior parte não tem valor exato, é mais um desperdício.

Por que, por exemplo, enviar um DVD e um folder publicitário em uma caixa de papel de medidas aproximadas em 30 x 20 x 4 cm se tudo isso poderia ser enviado por email? Bastava um link para acessar o vídeo no You Tube e um direcionamento de arquivo como um PDF. Imagine que o autor da ação de divulgação deva ter enviado esse press kit para, no mínimo, cem jornalistas. Quantas caixas, DVDs e folders estão hoje no lixão? 98, pois duas delas eu salvei.

Mas tenho encontrado uma solução para isso - só me falta tempo para executá-la com mais frequência. Guardo tudo que é bonito e pode dar vazão à criatividade.
Os designers de imagem e produtos não nos poupam de criar coisas belíssimas e tento aproveitar tudo deles. Envelopes, revistas, folders, caixas - a maioria de papel - se tornam presentinhos, embalagens de presentes ou cartões para mimar meus amigos e família. Fitas? Tenho inúmeras delas para dar o arremate.

É um carinho a mais, algo especial, porque quem recebe sabe a que dou valor no meu dia a dia e o que quero revelar, as atitudes que quero incentivar.

Repare, por exemplo, nas grandes ideias que a produção da Martha Stewart executou com materiais que possivelmente seriam descartados. São sugestões para embalar presentes, organizar cartas e contas, deixar os documentos e material de escritório no lugar, fazer a feira e evitar que a panela quente queime sua mesa.

As fotos são auto-explicativas, mas não custa lembrar que caixas de cereais, leite, sabão em pó, latas de leite e achocolatado, camisetas velhas, cortiças, tecidos, jornais e papéis de revistas foram matéria-prima para as criações. Só resta você abusar de sua imaginação e fazer coisas iguais ou na mesma linha.

Vou lançar um desafio:
As três primeiras pessoas que comentarem este post revelando como salvaram algo que iria para os aterros e lhes deram nova vida ganharão presentinhos meus feitos por mim mesmo com materiais reaproveitados. Não importa onde estiver - se perto ou longe -, enviarei por correio ou entregarei pessoalmente. Improvise. Reaproveite. Impressione.

21.4.10

Dia da Terra: mais reflexão produtiva; menos bandeiras decorativas


Não importa se você acredita na teoria evolucionista ou na criacionista do surgimento de nosso planeta e, por consequência, da vida nele. Importa mais uma atitude circulante e permanente sua no presente, revelando o que quer dele, para ele e com ele.

Existe sempre um discurso militante-ecológico que dissocia o ser humano do meio, como se a casa fosse mais importante do que quem a habita. Se Deus ou o Homem será o responsável pelo armagedon, só o futuro revelará. E a data exata não está registrada na bíblia, tampouco nas camisetas do Greenpeace. Mas como ele acontecerá, sim, isso está no nosso imaginário desde a infância.

Acabo de escrever a um amigo algo por email e acho que parte do texto pode ilustrar o que quero dizer acima. Só para situar: estava falando sobre um casal de amigos em comum a mim e a ele que gostam muito de decoração e investem bastante na construção de um interior aprazível para seu lar. Eu dizia que lhes daria algumas dicas de onde encontrar coisas legais e baratas de decoração aqui em São Paulo, já que trabalho em publicações do segmento e recebo infos sobre o assunto com frequência. Explicada, assim, a frase é: "Farei questão de dizer a eles que a casa deve ter mais espaço para circulação subjetiva do que vias abarrotadas de objetos decorativos".

Portanto, faço também questão de me autoparafrasear, com um quê de paródia, para você que lê o Colheita Seletiva: "o planeta deve ter mais espaço para a reflexão produtiva do que ruas abarrotadas de bandeiras decorativas". Menos falácia e mais atitude é o que precisamos para mudar o pensamento que monta sobre o lucro e exaure recursos naturais, resultado da soma da regência capitalista e antropocêntrica que incendeia nossas vidas.

Precisamos é de paz, da construção de uma cultura de paz econômica, religiosa e sociocultural. Somente depois que a bandeira branca convencer é que a verde terá algum valor educacional. "Falar de paz virou coisa séria. Não basta a estética, nem mesmo a ética, ou a inocência, ou o devaneio. É preciso militância. E não só a das ruas, circunstanciais e emotivas. Agora é também questão de escolha racional, com as conseqüências que isso envolve. É preciso que a paz seja uma opção política", escreveu a senadora Marina Silva em um artigo seu em comemoração ao dia da Terra, celebrado todo 22 de abril há cerca de 40 anos.

Mais um trecho do pensamento dela, que valido como sendo meu também, para ressaltar as minhas escolhas ecológicas e porque insisto em escrever neste blog mesmo com o pouco tempo que tenho em razão de viver sob um céu capitalista diariamente: "a qualidade de vida é direito humano, assim como a saúde, a educação, a habitação. E acumulam-se evidências de que a atividade econômica não precisa ser predadora. É desejável, viável e factível o caminho do desenvolvimento sustentável. Nada foi e nada será fácil na trajetória dessas ideias, mas elas se impuseram como alternativa e conquistaram adesões - ou, no mínimo, provocaram constrangimentos - em todos os segmentos da sociedade. Mexeram naquele recanto da mente e das emoções no qual está intacta a necessidade de ideais comuns e a crença de que um mundo melhor e sustentável é possível. Nós procriamos e criamos; é inevitável ter amor pelo futuro e compaixão pelo presente. O Dia da Terra exige uma atitude."

"Bandeira branca, amor
Não posso mais
...
Eu peço paz"*


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Saiba mais
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- Leia o ótimo artigo de Marina Silva na íntegra.
- Conheça a origem do dia em celebração à Terra aqui.
- Na foto, Adão e Eva - ops! - Fábio e Flávia (amigos meus) contemplando o resultado da criação ou da evolução da vida em um lugarejo do planeta Terra chamado Éden - ops 2! - Cristina, em Minas Gerais.
* quem cantou os versos foi Dalva de Oliveira em um contexto menos ambiental, mas tão apaixonado quanto o meu jeito de falar de um planeta possível.

vinte segundos

Elevador social, SESC Consolação, rua Doutor Villa Nova, 245, Centro. São Paulo, SP.
Sexto andar, por favor. Toda terça e quinta, na subida à academia do SESC Consolação, a senhora do elevador me escuta. E só isso. Na saída, muito obrigado.

Olhar para cima não resolve a vergonha de quem se vê em um espaço de quatro metros quadrados, sem fuga e levadiço. O ventilador no teto irrita o olho, embora seja por ele a única passagem para o escape se emergencial. Todos cabisbaixos para não se enfrentarem. Todos desconhecidos com suas vestes esportivas, suas mochilas cheias de timidez, toalhas de suor, água mineral, angústias matutinas, xampus, bermudas de laicra e barrinhas de cereal.

São vinte segundos até o andar do vestiário. A música é um cântico murmurado pela senhora que aperta os botões. Ele me remete às canções religiosas pelo timbre doce e as variações quase barrocas. Humhumhumhumhum.

Deixei que cantasse sozinha até semana passada. Me peguei no mesmo tom, acompanhando seu segredo musical, lamúrio não-identificado. Ela murmurava algo divino. Eu, uma tola letra do Fábio Júnior. São pequeninos grãos de areia tão fininhos que qualquer vento menino leva para outro lugar.

Depois disso, nunca mais cantou em minha presença. Depois disso, só me levou ao sexto andar em um silêncio incomodado.

Passarei a subir de escada na próxima ida à academia porque gosto mais de ascensoristas murmurantes do que de uma senhora triste e muda - guiando um elevador com plateia desatenta. Desligue seu celular antes do espetáculo.


Deus não sabe fazer poema

Eu escrevo torto
por linhas certas

Eu acerto as linhas
porque torto escrevo

Eu alinho o torto
porque escrevo e acerto

certo Eu, que entorto
o que escrevo
para não me alinhar,
não me alinhavarem

ninguém escreve certo por linhas tortas
porque Deus não sabe fazer poema

mal sabe Ele a dor de uma poesia verdadeira,
imperfeita e de pó,
de pé no chão

2.4.10

Vaga Viva - estacione


É isso mesmo, gente. A galera resolveu ocupar as vagas de carros nas ruas para chamar atenção para suas causas. Todo primeiro sábado do mês, a turma da Matilha Cultural promove a Vaga Viva, que enche alguma vaga das ruas, um lugar de carros, no centro de Sampa, de plantas, bancos, mesas, conversas e música. O objetivo é "a retomada do espaço público pelo cidadão", segundo um texto de divulgação que recebi por e-mail. Desta vez, como não viajarei na Páscoa, acho que darei um pulo lá para conhecer a proposta e, quem sabe, passar os meus primeiros sábados de todo mês com uma turma que pensa no comum e em alguma mudança.

No evento do dia 03/04, amanhã, eles discutirão a arborização do centro e promoverão coleta de assinaturas, reuniões, oficinas culturais e sessões de cinema e música. Se você estiver em Sampa neste feriado, vá.

E divulgue esta ideia também.

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O quê?
VAGA-VIVA + SHOW AUTORALL + OFICINA STENCIL
Quando?
03/04, sábado, 12 às 22h
Onde?
MATILHA CULTURAL, na rua Rego Freitas, 542 - São Paulo, SP
Quanto custa?
Entrada gratuita

Saiba mais
www.matilhacultural.com.br
twitter.com/matilhacultural
+ infos imprensa: nina@matilhacultural.com.br
(11) 3256-2636 

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Crédito da foto: divulgação.


Março se foi; a poeira, nunca

Você pode ou não saber, mas existe uma razão mais nobre que a comercial para se fazer do mês de março, especialmente o dia 8, um período do ano dedicado às mulheres. Receber flores do chefe, presentes das empresas, inúmeros cartões e jantares dos maridos não significa a real representação da data que, há cem anos, vem sendo marcada por lutas e manifestações dos movimentos feministas em todo o mundo.

É que em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a alemã Clara Zetkin propôs a criação do dia internacional da mulher. Mas a data que todos conhecemos, 8 de março, só veio a ser fixada mesmo em lembrança às operárias russas que, em 1917, promoveram uma ação reconhecida como o princípio da Revolução Russa. É daí que, provavelmente, o dia tenha sido escolhido. E, desde 1922, a data é símbolo de passeatas, discussões, marchas e outras ações em prol da reavaliação - e justificada equalização - de direitos e deveres entre homens e mulheres, e a criação de legislação e programas sociais que favoreçam a autonomia e a liberdade das mulheres em relação a diversos temas que pedem atenção sempre constante.

"O que defendemos é uma sociedade em que homens e mulheres sejam livres para desenvolver todas as suas potencialidades. O 'ser feminino' e o 'ser masculino' são construções históricas. Não podemos, em nenhum momento, dizer que somos iguais, pois temos corpos diferentes. E é urgente que essas diferenças sejam respeitadas", me explicou, por email, Eliane Barros - jornalista, feminista e ativista do movimento. Foi ela quem sugeriu este post no blog, que veio com certo atraso, mas mesmo assim pertinente.

Ainda que eu seja um homem e com o "ser feminino" em mim construído de uma maneira bastante peculiar, ratifico toda a proposta do movimento e apoio a revisão de todos os conceitos, especialmente quando se trata das diferenças entre homens e mulheres, físicas e comportamentais. "Uma delas, por exemplo, é que nós engravidamos e vocês, não. Dada essa diferença, exigimos o direito sobre nosso corpo, de optar por ter ou não o filho. Não se trata de defender o aborto, mas sim, de descriminalizá-lo e de tratá-lo como uma questão de saúde pública", ressalta Eliane. Agora, vai explicar isso para a liga das mulheres de Jesus Cristo neste país, onde uma rede de comunicação assumidamente católica disputa espaço com outra evangélica - e que, talvez, tenham lugares de mesmo tamanho e conforto nas salas das famílias hoje. É a hegemonia das redes de TV que vestem seu espectadores de culpa e pecado em detrimento de seu arbítrio livre. "Fazer as pessoas entenderem que o aborto é uma questão de saúde pública é o ponto mais difícil. Afinal, seria lindo se todas as mulheres tivessem condições de criar seus filhos, ou mesmo de ter acesso a todos os métodos contraceptivos", completa.

Em muitos momentos, eu tive vontade de lutar pela causa delas, saber como funciona o movimento, me aproximar de seus pensamentos. Eliane me explicou que não daria para participar das reuniões das construções dos atos (os dias em que elas planejam as ações), mas posso ter relevância nas manifestações públicas: "Não que o movimento seja sexista, essa é uma decisão histórica do movimento feminista, pois muitas mulheres não tinham coragem de falar diante dos homens tamanha opressão que sentiam", conta. Segundo ela, durante os atos (marchas, passeatas, panfletagem etc) a presença de homens é indispensável para ratificar a importância do movimento.

Embora a data tenha sido engolida pelas artimanhas do grande Espírito Capitalista para movimentar o comércio, ela é relevantíssima. O mês de março já era, mas a poeira não vai baixar nunca - ou, pelo menos, enquanto houver desigualdade e muitas batalhas pela frente. Eliane destaca: "Tendo em vista tamanha mercantilização de datas históricas como o 8 de março, com marcas de roupas e cosméticos fazendo uso dela para justificar promoções, acho importante divulgarmos o porquê dessas datas, como elas nasceram e tal. Caso contrário, muitos homens continuarão se perguntando: por que não existe um dia dos homens também?"

E que ninguém me pergunte isso jamais.

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Veja os panfletos produzidos por Eliane Barros e Paula Sambo (layout e texto, respectivamente), ambas amigas minhas, para a marcha que aconteceu na semana do 8 de março deste ano. Elas disponibilizaram para mim e eu gostaria de dividir com vcs. Basta clicar nas miniaturas que estão espalhadas pelo post para abri-las em formato maior. Salve no seu PC e leia.

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  MULHER DA VEZ















É uma menina ainda, mas com ideias firmes, fortes, complicadas de se dobrar. A linda da foto é Larissa, minha sobrinha, que cresce a esticões típicos da adolescência e amadurece com as tão intensas dores de deixar a infância para trás. Dedicada aos objetivos e com um senso de justiça imenso, será uma mulher de raiz, fibra e lutas - como são as mulheres que mais admiro hoje. Lalá, como a acarinho, foi clicada pela prima
Rafaela.





28.3.10

Verônica decide colher

em seu pastoreio,
na sua fugere urbem,
Verônica catava flores de poucos quereres
e as punha no bolso
- era um sinal de elegância

para a época ainda rodrigueana,
em que faltavam a delícia da paisagem,
os ventos intensos nos cabelos sem antifrizz,
tudo porque há televisores muitos
entorpecendo
seus amigos,
seus amores,
seus rumores de felicidade

levou-as para casa
e as escondeu em um frasco de creme da Avon?

não, fez melhor,
tomou chá de pétalas sem sabor
porque precisava crer que
só tem gosto
a beleza essencial,
aquela que não rejuvenesce,
mas se encontra
em um gesto não aparente

Verônica se deu com tanto,
que é isso e só:
ser belo é encher um bolso jeans
com flores murchas e descabeladas

-----
para minha Verônica, que não sabe o que planta, mas colhe o que quer.

E o bambu?

Calma, calma. O título foi só uma referência à piadinha grotesca que deixou Silvio Santos sem chão há muitos anos em um de seus programas de auditório (assista!) - sem chão, sem graça e sem saber o que fazer com o material.

Embora para Silvio o bambu não vá ter uma função lá muito conveniente, há centenas de aplicações da planta no nosso dia a dia em produtos que fazem parte dele. Tenha certeza de que, em sua casa, há, pelo menos, uma coisinha feita com a matéria-prima. Se aparentemente não for tão fácil de identificar algo de bambu, você pode desconfiar até do tecido que reveste a sua almofada (e não estou me referindo à estampa dela).

O bambu é uma planta versatilíssima e tem muitas vantagens, inclusive ecológicas. O bambu cresce muito mais rápido que a maioria das árvores utilizadas como matéria-prima, é facilmente renovável - não é preciso arrancá-lo do solo para sua colheita -, tem fibras resistentes e possui características antibacterianas (ideal para substituir as colheres de pau, aquelas que fazem os melhores brigadeiros que comemos na vida).

Tamanha é sua resistência que ela é utilizada na arquitetura e construção civil para servir como estruturas de sustentação de uma infinidade de edificações - procure informações sobre o arquiteto colombiano Simón Vélez, autor da Catedral de Pereira, cidade da Colômbia, mostrada na primeira foto do post. Há quem diga que algumas espécies de bambu foram as primeiras plantas a renascerem após o ataque atômico a Hiroshima. No mundo pós terceira-guerra (será?), sobreviverão as baratas e os bambus se as teorias estiverem corretas.

Há duas lembranças minhas com a presença marcante do bambu. Uma delas é o túnel que serve como entrada ao aeroporto de Salvador, BA, minha cidade natal. É um corredor refrescante, sombreado, para quem ainda não está adaptado ao calor da Terrinha. Tem menos de meio quilômetro, mas é como se durasse uma eternidade o passeio por ele. Há quem goste tanto da experiência que faz vídeos do percurso. A outra é referente a quando eu empinava pipa nas lajes dos amigos na época de criança. A gente costumava fazer as próprias peças - as minhas nunca davam certo - com lascas de bambu que trazíamos da praia e papel de seda colorida. Os setembros eram meses de bambu e papel no céu por causa dos ventos que faziam.

Deixando a saudade de lado, depois de uma digressão soteropolitana, minha sugestão é, quando se tratar de consumo, invista em produtos confeccionados em bambu. Na sua casa, nas roupas que usar, nos palitos dos restaurantes orientais, nas coberturas vegetais da sua cabana quando se perder em uma ilha como a do seriado LOST, na sua esteira de praia... para alimentar o seu panda de pelúcia até - quem sabe? Vale tudo.

É bonito, é prático e menos danoso aos ecossistemas onde haja presença dele e em que seu cultivo seja feito de forma adequada. Tomara que a criança sapeca do Silvio já tenha aprendido que há outras diferenças entre um poste, uma mulher e o bambu. O Silvio - né, querido? - já aprendeu depois de ter lido este post. Ha-hai-hi-hi!


Mais infos?
www.cooperadamente.blogspot.com (associação que produz a colher, a caneca, os porta-temperos e o pegador)
www.bamboo.ning.com (rede social brasileira com discussões sobre o uso do bambu);
www.bambubrasileiro.com (site de um grupo de estudos sobre a planta);
www.tibarose.com (grupo de estudos sobre bioarquitetura entusiasta do bambu nas edificações);
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As imagens que ilustram o texto: da catedral, são do blog Pensando Verde; do corredor de bambu de Salvador, Marco Aurélio Martins (Agência A Tarde); dos produtos da Cooperadamente, divulgação.

21.3.10

Imersão

fluido manto de regenerar a vida
parte do mar é aguardente,
outra, sal e chão
canais de sertão esperam a passagem
dos veios adocicados,
dos velhos
Chico, Negro, Tietê
é, para mim, o presente divino
escondido em torneiras
quem pede um copo cheio de água
pede um gole de cru e solene remédio
para um corpo inteiro
se batizar

afinal, nada mais que alma imersa
em eme-eles de líquidos,
sonhos em calefação,
somos nós

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Foi em 1992, mais precisamente no dia 22 de março, que a ONU publicou o texto da “Declaração Universal dos Direitos da Água”. Ele é um documento que sugere medidas e dá informações sobre a água a fim de conscientizar a população mundial a respeito da vital necessidade de se preservar os recursos hídricos do planeta. Por exemplo, não deixando torneiras gotejando como nesta foto, feita por mim em um parque de "PRESERVAÇÃO" do meio ambiente de Manaus, AM. Abaixo, a declaração da ONU para você conhecer e refletir, imerso em uma refrescante banheira cheia de consciência. E para termos, também, o que comemorar todo dia que não seja somente um 22 de março.

Declaração Universal dos Direitos da Água

Art. 1º - A água faz parte do patrimônio do planeta.Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos.

Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta.Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.

Art. 3º - Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

Art. 4º - O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

Art. 5º - A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

Art. 6º - A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

Art. 7º - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

Art. 8º - A utilização da água implica no respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Art. 9º - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

Art. 10º - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

18.3.10

romãs e amoras como quaisquer outras

Apê 41, com 35 m², rua Helvetia, 57, Santa Cecília. São Paulo, SP.

Na geladeira, esquecida no canto da gaveta de verduras, estava a romã. Rija e nua como cimento à vista nos muros das construções. Fernanda, que gostava mais dos sabores do que dos tons daquilo de que se alimentava, tirou a fruta de lá e a esqueceu sobre a pia. Não presta mais.

Frescas na sacola de supermercado, chegaram amoras viajantes, suculentas e cheias de tinta. Algumas até pintaram a caixinha de plástico que embalava o conjunto com exatos 258 g. No fundo, no fundo, era tudo rubro-negro. O que faria Rodrigo estremecer. Ele, que é fanático pelo tricolor baiano, repensaria suas escolhas hortifrutigranjeiras daquele dia em diante. Putz, fiz cagada.

A cozinha, pequena para Fernanda e Rodrigo, embora não tivesse armários planejados, coifa, ilha de preparo, panelas elétricas, tinha o essencial.

Tinha romãs e amoras com amor em comum, ao pé de cada letra vivida de cor e salteado, na dura rotina a dois.

16.3.10

água na boca

de boa noite são
o beijo, a rima, a métrica
deste poema

prometidos sejam
todos os versos que farei um dia em sua homenagem;
como as claras que bato por quem salivo,
eles contêm meu regozijo,
os versos me contêm
e são seus

mas só de saliva não vive
um bicho,
é preciso ter água para molhar
o que pela boca entra
como carne seca
e salgada

o olhar faminto seu
é meu desesperado consolo
e alívio

por isso, menina,
feche os olhos!

quero sonhar junto

dias de felicidade
mútua
eu quero muito

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para Flávia, que me lê, me sabe, me saliva.

14.3.10

e-namorar-se

Casa de tijolos à mostra, rua Harmonia, 667, Vila Madalena. São Paulo, SP.

"... o outro como continuidade de mim, outra diferença. Outro problema. Tem uma amiga que diz uma coisa que eu gosto muito. É assim: é conversando que a gente se desentende, né? Que é muito legal, né, essa ideia que... A experiência amorosa tem que ser essa experiência da diferença. O amor é perdição. O amor tem a ver com esse impacto da diferença em você, e não completude, e não conjuminação. Não são peças que se encaixam, são peças que se transformam, que se estranham. Esse que eu acho que é o pacto amoroso fundamental, quando você pode ter certeza de uma certa companhia na aventura da diferença".

Ele assistiu a esse discurso em um vídeo do You Tube. O moço era belo, tinha olhos de mandacaru maduro, verdes e espinhentos, mas suculentos na mesma medida. Ele quis um pedaço do moço que falou bonito no vídeo.

Ele só precisava de uma conexão. Um contato ponto-com. E conseguiu.

Nos dias depois de e-mails trocados, um encontro marcado. Garganta quente de quem arranhava pregas no ensaio de música coral. Pernas cansadas. Pele suada de uma noite vítima do efeito estufa. Em seu corpo, o delírio de quem esperou pelo brinde dos olhares, cam com cam, tim-tim. Em casa, o ritmo era o mesmo seguido no trabalho, na redação do diário serviço, nas estações de trem. Aqueles dois se encontrariam uma vez. O moço de discurso e olhos bonitos e o moço morto de fome e sede, criado à base de mandacarus.

Preciso fazer cocô, tomar banho, tirar a barba, comer e esperar. De toalha, o ritual higiênico. Desodorante roll-on, gel antiacne, creme pós-barbear, cabelo penteado para o lado esquerdo - desajeitado a dedos para não parecer tão almofadinha na webcam. Mesmo que não fosse preciso, perfumado estava. Comeu, deu escovadas nos dentes. Fio dental? Sempre.

22h02, com atraso. Um e-mail avisa "já estou on line". Peito inflado. Tinha o mesmo sentimento de uma mulher prometida. É tão bom sentir essa coisa virgem, essa voragem. Os vapores.

Era preciso somente uma conexão para aquele dia, para eles e-namorarem, se enamorarem. Era o modem barulhento, lento, um jeito de contato. Em vez do silêncio, o grunhido e o chiado a 56 kbps. Oi, olá, tudo bem, como foi o dia. Teclas no computador, linhas do MSN.

O modem cai. Contato perdido enquanto ele ouvia sinos, sinos que ba-da-la-vam forte.

Não adiantou ter creme no cabelo, máscaras antimanchas, cuecas antichamas porque o encontro não aconteceu. Desligou o notebook. O estabilizador também. A luzinha consome energia elétrica.

Conforme a meninice canceriana, deitou a cabeça sobre o travesseiro e se afundou em sonhos de amor wireless quando se questionava: "você pode ter certeza de uma certa companhia na aventura da diferença?"

Nem se a conexão for banda larga. Acordou de repente.

Ajoelhou? Tem que reaproveitar

“Começamos juntando restos de MDF e madeira que iriam para o lixo ou, pior, seriam queimados em marcenarias e serrarias da região, e transformamos isso nas casinhas das Cidades Imaginárias ou em simbologias e florzinhas para os Oratórios Pop”, explica a arquiteta, designer e artesã Daniela Bobsin. A quatro mãos, contando as de Fabrício Alves (antropólogo, designer, artesão e marido de Daniela), ambos vão descobrindo um jeito de alimentar a espiritualidade dos seus clientes, produzindo um artesanato belo e ambientalmente menos danoso. Ou, pelo menos, seguem uma meta de tentar sê-lo.

Eu os conheci por causa da seção Ecodécor (seus produtos colorem a página 39 da revista Casa Decoração, número 31, do mês de março), para a qual escolhi a história da labuta da dupla e suas intenções ecológicas a serem publicadas. Além de oratórios lindos e cidades imaginárias poéticas (foto acima), eles tinham “what it takes” para estamparem a coluna que assino na revista. Reutilizam materiais, procuram gastar menos recursos naturais, menos matérias-primas, e ainda têm uma visão abrangente do que é sustentabilidade.

A entrega foi tão grande, com uma abertura de peito ampla, que meu abadá foi passar o carnaval de 2010 com eles. Subi a serra do sul de Minas Gerais – e levei mais 16 pessoas comigo – para conhecer uma cidade curiosa de perto e, por consequência, conhecê-los. Foi em Maria da Fé, a cidadezinha mineira mais marcante que visitei ultimamente, que nos abraçamos depois de um longo contato por e-mail. Eles estavam mascarados, sorrindo e cheios de alegria no discurso e nos rostos quando desceram do carro ao chegarem à fazenda onde estávamos hospedados. Dali para a frente, formamos o nosso próprio bloco e o pusemos na avenida. Sem cordas. Sem amarras.

Porque nossa amizade veio além de um contato profissional e marchinhas de carnaval, pedi que me respondessem, separadamente, a algumas perguntinhas sobre seu trabalho. E o fizeram "com todo gosto", segundo eles mesmos, para estarem aqui no Colheita Seletiva. O resultado você confere nas respostas abaixo e nas imagens que estampam este post. Leia sobre o que pensam a respeito de sustentabilidade, artesanato e meio ambiente os integrantes da Oficina de Arte Cabeça de Frade.

Colheita Seletiva - Qualquer trabalho artesanal é sustentável?
Daniela Bobsin - Nem todo artesanato é sustentável no sentido de preservar a natureza, mas o é no sentido de dar sustento a um indivíduo que é parte do meio ambiente. A busca é justamente essa, encontrar o sustento próprio em um produto feito artesanalmente, mas que não gere resíduos demasiados.
Fabrício Alves - A sustentabilidade não é algo acabado, ela se parece mais com uma meta. Você nunca vai ser 100% sustentável, já que qualquer ação do homem no meio ambiente, mesmo com materiais renováveis, causa certo desequilíbrio. Para se fazer qualquer trabalho que implique em alguma forma de produção de maneira sustentável, é preciso ter sempre em mente as diferentes dimensões da sustentabilidade (social, cultural, econômica e ambiental) e tentar buscar o equilíbrio dessas dimensões de forma sincera. Assim, mesmo que o seu trabalho não seja ainda 100% sustentável, pelo menos, você está no caminho, está buscando. Melhor do que o que acontece na maioria dos casos: as pessoas se iludem ou usam a palavra sustentável como um jargão vazio, uma forma de marketing.

Colheita Seletiva - Quais as maiores preocupações ambientais do Cabeça de Frade na hora de criar?
Daniela Bobsin - Nossa preocupação é praticamente total, a gente não é ecoxiita, mas quase. Embora ainda não tenhamos conseguido trabalhar de forma 100% sustentável por agregarmos a nossas peças materiais novos, isso é um caminho, uma busca nossa. Atualmente, nossa maior dificuldade está em trabalhar com tintas sem agentes poluentes. Usamos tinta solúvel em água – que é menos agressiva – e nos protegemos com equipamentos de segurança, mas gostaríamos mesmo é de chegar a um pigmento natural. A questão é que, normalmente, nos expressamos com cores fortes, que, por hora, só encontramos nas tintas industrializadas. No mais, procuramos usar o mínimo possível em tudo: energia elétrica, trabalhando de dia e aproveitando a luz solar; o mínimo de água, juntando tudo que precisa ser lavado durante o dia e fazendo isso uma só vez; o mínimo de resíduos, reaproveitando tudo que puder... o pó do lixamento das peças vira cola para calafetar cantos, a fita crepe é reutilizada zilhões de vezes, todos os potes e bandejas que usamos na oficina são reaproveitamentos do dia a dia. Depois que você adquire consciência ecológica, não tem mais como voltar atrás, você não consegue sair poluindo arbitrariamente, procura recuperar tudo o que pode para não virar entulho no lixão.
Fabrício Alves - Pretendemos cada vez mais utilizar materiais de reciclagem (caixas de fruta, restos de madeira e MDF, isopor, papelão etc.), reduzindo o lixo e a extração de matéria-prima natural. Nossas peças são exclusivas e de médio a alto valor agregado, uma forma de diminuir a escala da produção. Pretendemos usar cada vez menos materiais tóxicos, pensando também na nossa própria saúde, o que indiretamente contribui para o meio. Nesse sentido, estamos pesquisando tinturas mais naturais, mas é difícil conseguir a mesma variedade de cores. Temos a intenção de pagar sempre mais para nossos parceiros, produzindo assim um comércio mais justo, o que de certa forma acaba por refletir no aspecto ambiental, já que a desigualdade social potencializa os danos ambientais.

Colheita Seletiva - O que é o projeto Cidades Imaginárias? O que falta para dar certo?
Daniela Bobsin - A ideia veio do Fabrício. Ele sempre quis fazer casinhas de madeira – engraçado que eu é que sou a arquiteta da história. Nós seguimos fotografando casas que gostamos pelos lugares por onde passamos, então montamos um arquivo para servir de base na criação. Na falta de tempo para executá-las, queremos encontrar algum grupo social excluído ou que tenha tempo livre para nos ajudar a realizar este projeto. Eu, particularmente, gostaria de trabalhar com presidiários, pois já participei de um projeto semelhante no Rio Grande do Sul. Acho que o que falta para dar certo é a gente se mexer com um pouco mais de afinco.
Fabrício Alves - As Cidades Imaginárias surgiram como um hobby meu. Eu comecei fazendo casinhas, depois vi que juntas pareciam minicidades, daí comecei a fazer mais porque era divertido reproduzir a arquitetura das casas em miniatura. Eu fazia e ficava viajando nas casinhas, como se fosse mesmo uma cidade. No ano passado, decidi fazer comercialmente porque as pessoas viam lá em casa e gostavam. Por outro lado, as casinhas – tirando a tinta – são de material totalmente reciclado, o que diminui o impacto ambiental e os nossos custos. Gostaria de trabalhar com um grupo de presidiários nesse projeto ou qualquer outro grupo que passa muito tempo parado. Já senti na pele o ditado “cabeça parada é a oficina do diabo”. Qualquer tipo de trabalho funciona como um resgate de autoestima. Se não rolar nenhuma parceria por enquanto, eu arrumo um funcionário e nós mesmos começamos a fazer as casinhas, assim vamos procurando mercados enquanto não conseguimos nenhum grupo interessado.



Quer conhecer mais sobre a dupla e adquirir alguma das peças? Visite o site, ou a própria oficina em Maria da Fé. Ela fica em uma praça cujo nome é Felicidade. www.cabecadefrade.com é o atalho até lá.

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A primeira foto é da minha cidade imaginária particular, uma herança que Daniela e Fabrício me ofereceram. Ela está na parede do meu quarto, no espaço dedicado às boas lembranças que tenho. As demais fotos e o vídeo postados aqui são material de divulgação deles.

8.3.10

Sim, isso fere o meu lado masculino

Quero contradizer Ney quando canta sobre homens femininos. Sou um deles e andei pensando que ser um homem feminino fere, sim, o meu lado masculino. Não dá para não sair ferido quando ouço algum amigo falar sobre a "bunda de uma mina" ser mais importante do que o modo como ela se comporta. E tenho vergonha de ser do time dos homens (vergonha por eles) quando isso acontece. Mulheres são tão complexas que, somente a distância, é possível fazer ALGUM esforço para compreendê-las. Uma bunda com swing não sintetiza uma mulher.

Aliás, nada sintetiza uma mulher.

Saio ferido quando elas me olham pedindo cumplicidade porque as lágrimas são cristais arranhando os olhos. Saio ferido porque são fortes e resilientes como um banco de praça. Elas são cangas de praia se estendendo sob o sol cancerígeno. Elas são um hímem complacente a cada investida do destino. As mulheres são o meu tão esperado orgasmo múltiplo. Por tantas, saio ferido, com o meu lado masculino cheio de marcas de unha.

Este blog é para contar sobre as minhas chances de viver com as mulheres, tentar entendê-las, vivenciá-las na beleza espontânea de seus sexos - aqueles não genitais. Sou tão íntimo delas que me sinto um absorvente interno, inchado, manchado com a sangria de quem convive entre as espécies que cozinham dedicadamente aos seus maridos e as que queimariam sutiãs na avenida Paulista pelos direitos das primeiras.

Começo hoje, dia dedicado a você, mulher, uma série de percepções - ora angustiadas, ora solenemente leves - escritas com o carinho de uma língua na nuca ou uma palavra de amor enviada por SMS em um momento não esperado.

Vez ou outra, escreverei algo aqui. Não prometo frequência. Por isso, volte sempre para saber do que só um homem com F é capaz. Um homem feminino de verdade.


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MULHER DA VEZ

Minha mãe, dissimulando não ver que eu estava fotografando, para sair "natural". Ela, a mais relevante de todas as mulheres que tenho na vida. Tem 66 anos, um gênio de 15 e sorrisos de 5. Tem quatro filhos (todos com parto natural - a guerreira!), quatro netos, genros, nora e um marido pra lá de amante, meu pai. Já vi fazer cada coisa... que é bom nem contar por aqui, embora o que melhor faz é incondicional e instintivo: exercer a maternidade.


Nos posts seguintes, haverá mais mulheres íntimas minhas. Você pode ser a próxima.

7.3.10

Antes ou depois? Durante!

Tenho um bolo de pelos se enovelando no estômago. Sabe quando a gente tem um desafio pela frente e tudo o que pode acontecer não depende só de nós? O que fazer? Estou em um projeto novo na empresa onde trabalho que será tocado essencialmente por mim. Tenho de pensar em tudo de cabo a rabo, dar conta de tudo de rabo a cabo, ser um bombril.

É angustiante saber que as coisas tomam um tempo para se realizarem. A gente sempre quer ver o resultado, ver o depois. O durante pouco importa. Mas tenho exercitado isso em mim. É vendo no caminho - e só no caminho há pedras ou atalhos - o que há de mais gostoso. O aprendizado acontece no durante, não no depois. Não posso esperar que eu tenha aprendido algo no final de todas as contas - o saldo é passível de dúvidas. As memórias são traiçoeiras. Muitas vezes, depois de porres ou açoites, elas nem existem mais. Por isso, minha meta tem sido: menos úlceras e mais cicatrizes na minha história.

Você consegue lembrar, exatamente, qual a dor que sentia quando arrancavam-lhe os dentes-de-leite? Estou aqui vasculhando em meus arquivos e nada acontece. Só lembro do sabor ácido de sangue jorrando na boca e dos dentes atirados sobre o telhado para que os novos crescessem com saúde. Eu cantava: "ratinho, ratão, eu te dou este dente e você me dá um bem grandão". Hoje, tenho todos eles na boca - certo que alguns já com argamassas. E só tenho as lembranças boas porque alguém (meu pai, minha mãe, meus irmãos) me disse que eu tinha de passar por aquilo para cumprir um objetivo. Já naquele momento, eu procurava entender o valor do processo.

Parei, por exemplo, de viajar para algum lugar sofrendo antecipadamente por causa da volta; sofrendo porque o tempo passaria tão rápido e eu já retornaria para a rotina. Agora, eu chego a algum lugar pensando nos instantes que viverei e procuro a salubridade que só tem quem saboreia a bala sem mordê-la antes do fim. Recomendo lembrar das balas Soft (no seu formato antigo) para saber sobre o que estou falando, pois eram tão saborosas quanto perigosas, como é tudo o que vivemos.

Sessões de terapia e boas doses de experiência me fazem acreditar nisso que quero compartilhar com você, sobre o que já sabe ou ouviu falar: o mais importante é o caminho. Tenho posto em prática e tenho aprendido. Vale cada angústia amenizada. E toda angústia amenizada é uma dor a menos.


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Na foto, meu sobrinho Raphael e o primo-sobrinho Arthur caminhando em direção ao gol: ver os jogadores do Cruzeiro treinando na Toca da Raposa, Belo Horizonte, MG, em outubro de 2009. Será que perceberam o que havia de importante entre eles no caminho? Eu percebi e fiz a foto. Eles terão para sempre.

ave de unhas pintadas

tem os dedos pintados de rosa-ternura,
nos loiros cabelos o Sol brinca todo meio-dia

há luzes

radiante sorriso de pronta-entrega
ainda tem muito para viver esta menina,
dizem

mas a experiência é só dela,
sabe o que veio como dom,
sabe o que tem palpitando no peito

é que Deus só investe nas asas
quando a pessoa já tem coragem
e destino

outono no meio,
mas o inverno vem chegando

ela vai migrar,
como uma ave de unhas pintadas
e adolescentes

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para Rafaela, que logo, logo sairá do ninho porque já tem coragem.

28.2.10

Axé, natureza!

Tanta gente sai espalhando por aí um "axé" que nunca entendeu direito. Eu mesmo, antes de pesquisar um pouquinho para escrever este post, não sabia ao certo o que significava a palavra. Se eu digo "axé" (das línguas africanas e incorporada pelo baiano por correspondência) para alguém, desejo que toda a "energia vital e sagrada" que nos ronda esteja presente a cada passo que esse alguém der. "Axé" tem a mesma força que "Deus te abençoe", "vá pela sombra", "shalom"... a mesma magia que inunda os nossos corações quando estamos conectados, hamorniosamente, com o todo. É para os momentos em que somos natureza, quando somos Deus na sua inteireza. E só somos natureza quando somos o próprio Deus.

Daí vem a minha argumentação ao dizer que, de algum modo, existe uma essência ecológica nas crenças, mitos e rituais do candomblé. Aqui, trato algo como "ecológico" na sua ideia primária, que é "aquilo natural, da natureza". Se você buscar um pouquinho da história das religiões africanas, vai entender e se encantar com uma poesia incrivelmente escrita sobre a força das coisas naturais - onde não há bem e mal em luta constante, mas em completude. 

Tudo do candomblé tem a ver com a natureza. Desde a origem de seus orixás até os mais sangrentos rituais de oferenda. Conto exemplos de histórias controversas que envolvem Iemanjá (para ter certeza sobre alguma dessas histórias, você vai precisar nascer de novo e ser a própria rainha das águas), orixá sobre quem falei no último post e questionei sua vaidade a ponto de permitir que seus filhos poluam os mares com objetos que tão cedo não irão se degradar. Minha intenção é mostrar o animismo exacerbado do candomblé que inspira um cuidado gostoso com a natureza. 
Mito 1
Iemanjá, mãe de Exu, Oxóssi e Ogum, nasceu nas águas doces. Enquanto seus irmãos Oxóssi e Ogum eram mais comportados e estavam pelo mundo seguindo suas obrigações, Exu andava por aí como um boêmio, "causando" por onde passasse. Um dia, quando voltou para casa e viu sua mãe sozinha, belíssima como nenhuma outra, Exu tentou possuí-la. Bravamente, Iemanjá resistiu. Na luta, seus fartos seios foram rasgados e deles, entre lágrimas e vergonhas, saia a água salgada que deu origem aos mares.

Mito 2
Certo dia, Iemanjá, cansada de sua permanência em Ifé, o reino dos orixás onde era casada com um poderoso homem, foge, levando consigo uma garrafa que havia herdado de seu pai, Olokum, contendo um misterioso preparado. Quando estivesse em perigo, ela deveria quebrar a garrafa jogando ao chão. O marido lança seu exército em busca dela, com o objetivo de trazê-la de volta. Ao se ver cercada pelo exército, ela quebra a garrafa e um rio forma-se imediatamente, levando-a para Okun, o mar, morada de Olokum.

Não é possível crer que alguém que tenha algum envolvimento com o candomblé não possua pela natureza um respeito profundo. Se toda a história da religião e seus rituais abarcam a natureza, como não podem seguir em busca de uma postura mais ecológica e condizente com a crença que têm? Jogar lixo no mar não dá, né? Nem para quem é filho de santo, nem para quem é o próprio orixá. Iemanjá devolve todos os frascos de perfume entregues para ela no dia que lhe é dedicado. Você, com certeza, conhece alguém cujo pé já foi dilacerado por um caco de vidro de um antigo frasco cheinho de aroma de alfazema.

É como meu amigo André de Paula Eduardo comentou ao me responder a pergunta do último post: "Iemanjá é sim extremamente vaidosa; porém sua vaidade se dedica à preservação do mar - de sua casa, seu repouso, seu canto, seu reino. O plástico dos perfumes, símbolo da vaidade dos homens, polui o verdadeiro aroma do mar. A natureza é mais vaidosa, mas dentro de suas leis, não das nossas... Iemanjá é a protetora dos mares por ser muito vaidosa - mas seus perfumes são o próprio segredo e mistério das águas". Lindo, não?

Se, nas escolas, as crianças tivessem acesso a mitos tão belos quanto os dos orixás, aposto que nenhuma delas faria o que o aparentemente inofensivo irmão do garoto da foto fez em minha frente. Estávamos no momento mais esperado do passeio de barco pela Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Ambos, ele e o irmão, tomavam refrigerantes servidos a bordo em copos de plástico transparentes. E eles brincavam com os copos para lá e para cá quando o líquido acabou. Iríamos ver uma gruta famosíssima de perto, onde o barco entraria com força e risco. O mar tinha cor de petróleo por causa de sua profundidade e pelo céu encoberto naquele instante. Todos do barco estavam encantados com a beleza da gruta, exalando seus "ahs", "ohs", "nossas". Já estávamos dentro da gruta. 

O tripulante avisava que, por razão do mar revolto, não nos aproximaríamos mais. Porém a vontade do erê de sunga verde foi outra em vez de ficar extasiado com o momento. Seu plástico copo rasgado tomou o rumo da água salgada. E lá se foi mais um objeto sujar a casa de Iemanjá. Os pais, que não viram nada, sequer puderam repreendê-lo. Ele, ao perceber que eu havia testemunhado sua travessura, fez a cara do Gato de Botas do filme Shrek. Imagine minha feição de reprovação... e, claro, como o erê antiecológico ficou constrangido.

Que oxalá abençoe esse menino e ele seja um adulto preocupado com suas pegadas assim como é você que lê este post. 

Odo-yá!

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Saiba mais
Enquanto pesquisava, encontrei uma matéria ótima e super didática da revista Superinteressante. Além disso, há alguns arquivos neste site sobre o candomblé que podem dar uma ideia sobre a religião. Aposto que você vai se encantar e entrar no primeiro terreiro que vir pela frente nos próximos dias.

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Fotos
As fotos que postei aqui foram tiradas em Arraial do Cabo, RJ, durante um passeio de barco ótimo. Fui fazendo várias fotos, incluindo a dos dois irmãos peraltas. A paisagem de lá é inesquecível.

21.2.10

RSVP

você habita meu imaginário
- e ponto

orbita minha vontade
de carregar balões
despretensiosamente
nos dias de crianças na praça

queria te ver deitado sobre um banco
folheando livros
com meu nome na capa

queria que me lesse
para conhecer o que fantasio
com que roupa me visto
com que letra existo

pergunto, melhor, convido:
e isso que digo, "o que te dá"?



répondez s'il vous plaît


------------------------

para j.

2.2.10

Iemanjá é mais vaidosa do que protetora das águas?

É dia de Iemanjá. Na minha terra, Salvador, tudo é festa e feriado no dia 2 de fevereiro. O mar é mais mar. O azul, mais azul. A Bahia, mais Bahia. Hoje foi de emoção para cerca de 300 mil pessoas, segundo o portal G1, que lotaram o bairro do Rio Vermelho, onde os festejos se concentram.

No trabalho, comentei sobre a data e os costumes com colegas e abrimos uma discussão. Uma questão, levantada por Guilherme Mota, foi bem pertinente e quero compartilhá-la aqui.

Será que Iemanjá é mais vaidosa do que protetora dos mares?

Será que ela gosta tanto de vidrinhos de perfume, vasilhas plásticas de desodorante ou bijuterias feitas com toda sorte de materiais nada biodegradáveis?

Quem responder ganha flores como as que são oferecidas para Janaína (apelido da rainha do mar) em dias de maré de felicidade. Comente este post respondendo à pergunta. Semana que vem, prolongarei o comentário e falarei mais sobre orixás, águas e rituais, além de como o Candomblé pode ser uma manifestação religiosa essencialmente ecológica.

Axé.

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Na foto, instante em que capturei uma menina em Arraial do Cabo, RJ, onde estive duas semanas atrás. Ela catava os peixinhos brancos jogados na areia pelas ondas e os devolvia à água. Um ato fotográfico. Singelo.

28.1.10

Por que investir em artesanato?

Sou repórter da revista Casa & Decoração, na qual assino uma coluna chamada Ecodécor. A proposta dela é divulgar ideias, produtos e atitudes que tenham a ver com a casa e que sejam ecologicamente responsáveis. E um dos temas mais frequentes tratados por mim na coluna é o artesanato feito de modo positivo, verde, com alguma característica que torna o resultado dele um produto interessante do ponto de vista ecossocial.

Na edição de janeiro da revista, nas bancas até a semana que vem, você pode conferir uma imensa quantidade de iniciativas privadas e não-governamentais de apoio a comunidades e/ou indivíduos que produzem um artesanato belíssimo e com grande valor social agregado a ele, seja pela forma como os recursos naturais são usados como matéria-prima, tanto quanto de que maneira os produtores do artesanato são remunerados - se de modo justo por exemplo. É só abrir na página 42 e conferir o especial sobre artesanato que fiz.

Decidi escrever este post não como jabaculê da revista, mas como extensão dela. Em todas as viagens que faço, procuro trazer um pedacinho da cidade visitada comigo. E se a cidade tiver uma produção artesanal forte, então, é excesso de bagagem na certa.

O legal mesmo é conhecer o próprio artesão, conversar sobre sua história, descobrir as referências (de vida, cultura, natureza) que estão impregnadas no artesanato que quero levar para casa. Nem sempre falar com o cara é possível no momento da aquisição, mas, pelo menos, investigar a origem dos materiais usados e como ele foi parar naquela lojinha ou banca faz que você possa optar pela não-compra se desconfiar de algo "podre" por trás de todo aquele lero-lero bonito de se ouvir. Pode apostar que vai haver uma placa sobre quem produziu a peça em questão ou o vendedor vai saber contar uma história legal, por menos completa de informações que ela seja.

Meu quarto é um pandemônio de referências e memórias. Guardo muitas coisas consideradas "tranqueiras" por quem me visita. Porém, entre os guardanapos, tíquetes, pedaços de galhos, postais..., há delícias artesanais presas nas paredes, expostas nas estantes ou dando um colorido ao chão. É minha forma de me transportar para os lugares que já visitei, onde pude promover o comércio local e estimular a produção cultural de lá. É por isso que considero investir em artesanato uma forma de incentivar práticas de sustentabilidade entre aqueles que dependem dele para sobreviver. E se você tem consciência de como a engrenagem funciona, é coração tranquilo e beleza para curtir por muitos anos.

Se não puder viajar nos próximos dias ou não conseguir trazer peças de suas andanças, vá até os sites abaixo. É uma listinha de organizações cujos trabalhos acompanho faz algum tempo e ponho fé em suas práticas. Elas orientam artesãos no sentido de extrair os recursos naturais de maneira menos danosa, conseguir inserção de seus produtos no comércio e como gerir as comunidades financeira e socialmente. Dá até para fazer o pedido com alguns cliques e receber em casa - e com pagamento parcelado. Vale a pena mesmo.

Conheça!

www.mundareu.org.br
www.artesol.org.br
www.oficinadeagosto.com.br
www.institutomeio.org
www.artesanatobrasil.com.br

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As fotos que ilustram o post foram feitas durante minhas férias em Manaus e região, AM, no mês de outubro do ano passado: 1. vendedora de artesanato em box do Mercado Municipal de Manaus; 2. tapetes feitos com retalhos de tecidos e sacolas plásticas expostos ao sol em Paricatuba; 3. vendedor ambulante de pulseiras artesanais em uma praça do centro da capital; 4. chocalhos produzidos com cabaças e penas sintéticas, vendidos no Parque Ecológico Janauary.

19.1.10

crime passional

Apartamento 151, Avenida 9 de Julho, 1235. São Paulo, SP

Diariamente, regava o bonsai sem saber a receita de vida. As gotas de água borrifadas se espalhavam pelo vaso que tinha o tamanho de um cão miúdo. Cuidava, cuidava, cuidava para que o Sol lhe aparecesse na janela todos os dias a fim de jorrar calor sobre seu vegetalzinho virtual. Os conhecimentos de botânica, poucos que eram, não lhe impediram de ruminar uma verdadeira sentença de morte.

Aos poucos, a verdejante e fresca planta se tornava um esturricado pezinho-de-algo.

Molhava mais que o necessário para ressuscitar.

Molhou demais.

Hoje pela manhã, distraído com uma picada de pernilongo veraneio, o cotovelo lançou o bonsai para fora, do 15º andar. E, na tentativa de recuperá-lo, agarrou pelo galho único como se salva uma criança pelos cabelos. Sem proveito.

Nos jornais do meio-dia, notícias de um crime passional.

o

17.1.10

Sobre árvores, livros e filhos


Plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Em dias de reflexão sobre o meu papel na existência, essa máxima imposta ao que se espera de uma vida é inquietante. Foi José Martí, poeta cubano, que um dia levantou a poeira sobre o que faz um ser humano completo com sua ideia dos objetivos estarem entremeados por árvores, filhos e livros. Hoje, ditado popular e até clichê - como este post o é -, a frase de José me veste bem. De todas essas realizações, somente concretizei a da árvore até agora.

Inúmeras vezes semeei a minha vontade de fazer o solo fértil por aí: nas caminhadas até as cachoeiras; nas sementes pisoteadas que carrego na sola; nas tentativas de fazer mudas dentro de vasos na varanda de casa. Plantar árvores é o que se faz mais fácil de concretizar na vida. Basta ter semente, terra fértil, água e um pouco de entrega.

Minha relação com árvores sempre foi muito, digamos, íntima. Sempre adorei ficar sob a sombra de uma copa grande de mangueiras, brincar em balanços presos aos galhos de uma jaqueira (menos perigosa, claro), subir nos pés-de-tamarindo ou jambo de tia Nora para colher os frutos fresquinhos. Passei a infância rodeado de frutíferas. Na minha casa, por exemplo, havia um pé-de-acerola que vivia pintado de um frescor carmim, adorado pelos moleques (meus amigos) da rua. Toda safra era motivo de gritaria da minha mãe porque eles trepavam no muro de casa e balançavam o pé até que as acerolas rolassem pela calçada: "parem com isso, meninos, vocês vão matar minha planta", vociferava maternalmente. Além disso, havia a mangueira de frutas cadentes e estrondosas de dona Nice, as carambolas e araçás verdinhas de tia Tereza - boas vizinhas que eram - esperando que eu as colhesse dos seus pés.

Existe um quê de poético no ato de se plantar uma árvore. É como se fosse depositada naquela semente a esperança de tudo que se acredita ser bom, útil e sagrado. O que está por vir tem a força de um recém-nascido e o encantamento de um livro, mas não chora ou faz chorar com facilidade. Tem a identidade de uma criança ou a essência da literatura, mas não faz manha ou é terrivelmente laborioso a cada parágrafo. É tão valioso como um sorriso da filha que se casa ou uma última página conquistada, tão eterno enquanto dura na memória.


Ao que José Martí pregava, plantar uma árvore é das coisas mais fáceis de se fazer e, de algum modo, tem o mesmo propósito que as outras duas: inspirar o dia a dia. Enquanto você não escreve o livro ou tem o filho, quero ajudar na sua realização de plantar uma árvore. Tenho três envelopes contendo sementes de aroeira-pimenteira, cedro rosa e jacarandá da Bahia para doar. Faça um comentário sobre este post contando uma lembrança sua que envolva alguma árvore que eu enviarei por correio os envelopinhos. As três primeiras pessoas que comentarem receberão a oportunidade de verdejar a própria história e contribuir para a preservação de algumas espécies, como o jacarandá da Bahia, na lista do Ibama que contém árvores ameaçadas de extinção.

E depois?

É só semear.





10.1.10

Verão? Vai ter que remar


À frente do bote, promessa de aventura desconhecida. Antes mesmo de colocar o remo na água, as instruções são ouvidas com atenção. Respingos de alegria úmida se jogam sobre o colete salva-vidas. A expectativa é lancinante, ainda mais quando o rio não foi apresentado antes. Esse será o seu momento se você, neste verão de calores instensificados por frustrantes desacordos em Copenhague, escolher o rafting como esporte favorito.

É sempre assim. Já fiz rafting cinco vezes na vida e o friozinho na barriga é o mesmo. Não que cinco vezes me dê grande experiência no esporte, mas me faz um turista experimentado na arte de mover águas com a força do muque. E dos sentimentos que causam pedras arranhando um bote cheio de ar, em quedas de até 5 m de altura, com você protegido por um colete salva-vidas, um capacete e um instrutor que sintetiza seu discurso em pouco mais de meia-dúzia de comandos: frente; ré; direita-ré; esquerda-ré; parou; corda, piso...! Sendo este último o mais aguardado pelos rafteiros. E o mais deliciosooooo! Uhuuuuu!

Ainda que seja um esporte caro para o praticante esporádico (você pode gastar entre R$ 70 e 120 pela descida), o rafting guarda muitas vantagens:
- É um esporte coletivo, que estimula o trabalho em grupo e valoriza a integração e harmonia entre os remadores como combustível para chegar ao fim das corredeiras.
- Normalmente os percursos enfrentados por amadores não chegam ao nível 4 (a escala vai até o 6 em rios bravos e com quedas altíssimas), por isso é um esporte seguro - sem falar do pré-treinamento e do equipo de segurança que as empresas oferecem.
- O visual é uma delícia: nos momentos em que você não está preocupado em se manter dentro do bote por uma questão de sobrevivência, seus olhos se perdem na paisagem ribeirinha que é de suspirar.

- Uma aula de consciência ambiental na prática. Duvido que, no meio de uma descida, você não pare para pensar na importância de se preservar os recursos naturais que ainda temos. Se vir uma latinha rolando rio abaixo, vai até querer pular do bote para resgatá-la. A única forma de poluição que consigo imaginar causada pelo rafting é a sonora. Os gritos de guerra e a barulheira da galera nas quedas pode assustar os animais que habitam os arredores, interferindo em sua rotina. Já ouvi um instrutor comentar que algumas espécies de aves passaram a ocupar outras regiões extra-circuitos de rafting por causa do barulho dos esportistas.
- Você emagrece! Seus braços saem musculosos depois de "passar manteiga" inúmeras vezes no rio por longas horas (já cheguei a ficar cinco horas remando).
- É refrescante. Qualquer esporte aquático, pelo menos para mim, é de se levantarem as mãos para o céu. Molhar-se por completo, nadar no rio, fazer guerra com remo e água entre os botes, molhar a cabeça no "surfe" (um momento da descida em que os instrutores nos levam até uma das quedas para que possamos remar de encontro a ela e nos molharmos inteiros)... vida boa.

Já desci os rios paulistas Jacaré-pepira (Brotas) três vezes, Rio do Peixe (Socorro) e Paraibuna (São Luiz do Paraitinga) uma vez cada. Gosto muito do Jacaré-pepira por ser o mais emocionante, pedregoso, rápido e "quente". As paisagens dos outros dois são muito mais bonitas. O visual do Paraibuna é espetacular, há tucanos voando rasante. E no Rio do Peixe, você consegue ver bandos imensos de capivaras soltas observando preguiçosamente a passagem das caravanas de botes.


Neste post, você pode ter uma ideia pelas fotos da delícia que foi fazer rafting algumas vezes e, quem sabe, se estimular a escolher um roteiro para os próximos feriados. Procure as empresas de rafting se seu destino for uma cidade em que o esporte seja o carro-chefe do ecoturismo. O rafting é caro porque envolve muita gente e pesada manutenção para fazê-lo acontecer. Mas é um investimento sem arrpendimentos.

Eu garanto. E faço um convite para a próxima descida. Vem comigo?


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* as fotos foram tiradas pelas empresas que oferecem o serviço de rafting, exceto esta última, chamada "Romulo e Remo", clicada por Eliane Barros.

intransponível

os dias de açoite dormem
com noites que acordam
chuvosas e frias

lá do alto,
na montanha mais longe de mim,
teço comentários essenciais
sobre um casebre com janelas
semiabertas
semiáridas
semipálidas

estou uma incompletude,
um vacilo duradouro
por
anos, anos e anos
em um calendário de folhas viradas,
marcadas com sofrimento mudo

tenho amor demais
implícito

vivo como um vaso frágil
sobre um bambo aparador:
a queda é urgente

por isso, quero me despedaçar
- escravo que sou
sobre um tapete com tons gramíneos,
amortecidos os cacos terei assim
como uma overdose que se finda

chega de amar sozinho,
sem retorno,
alguém que me esconde atrás de uma montanha
alta, inerte e febril

hoje, abandonei meus grilhões
no cesto de roupas sujas