24.2.08

subsolo paulistano

sou vítima de uma cidade
por que me apaixonei

nas calçadas em preto e branco,
ouço seus gritos de socorro
entre buzinas, escapamentos e passos apertados

por mais que mãos estenda,
abraços não vêm

só há sufocamento
numa terra onde me planto inteiro

quero água,
quero ar
e um pouco de adubo

onde sou semente,
onde pretendo futuro

aqui, São Paulo
no subsolo

20.1.08

textura

na veste, a palavra corrida é texto
um emaranhado de fios na tecelagem
um corpo meu que se despe de sílaba em sílaba

toda palavra minha é um pouco de tecido
é um pouco de pele
um pouco de ideia
e textura

vezes que sou continente,
sou razão

vezes que sou conteúdo,
sou instinto

cada letra de mim
se perde em minha nudez
que devora

um
a
um

os olhos de quem me lê

26.11.07

velório

eu, menino dos pés de cera,
a cada asfalto quente
deixo passos e costumes
derretidos no chão

por isso ando descalço
para que alguém descubra
um descaminho
até mim

já que migalhas
pássaros e mendigos comem,
prefiro perder a sola
a não voltar para casa depois

depois de um traço,
um abraço:
uma bússola

meus pés estão pela metade
- minhas pernas são pavios curtos,
são pavios de fogo e algodão

à espera de um sopro
que não me apague

9.10.07

tangos

quero dançar um tango
quero, entre pés e pernas, balançar um pouco
este corpo que só serve
de meio, veículo e suporte
para uma consciência que quer liberdade

quero ouvir um tango
como se cada palavra cantada
fosse uma melodia única
um som estranho ao meu estado coberto por fel

um tango de libertação e virtude
um tango de [verdadeira natureza]
um encanto para enfeitiçar

quero ouvir um tango
neste momento-já que não espera
não espera sequer um ruído
despertar do silêncio

quero poetizar um tango
como se precisasse me revelar
por entre meus passos e abraços
solitários

19.9.07

recado pra ti e pro bem-te-vi

quando bem te vi,
ao meu olhar dei todo doce
daquela fruta ainda imatura
que o pássaro insistia em bicar

tive um bem para molhar os lábios
salivados do desejo de um beijo
nosso

bem-te-vi ao longe
a voar
a roubar o gosto de um sentimento que é meu

meu bem, tive a chance de chegar bem perto,
chegar mais próximo até que não houvesse mais espaço
entre mim e o corpo teu

mas o bem-te-vi intruso,
com seu canto ruidoso,
anunciando presença alada,
roubou-me o gesto de te fazer todo-arrepio:
teu olhar seguia-o,
tua distração

meu bem, meu bem, te vi tão junto
que agora quero preso o pássaro
e livre meu eu-que-bem-te-vejo

da próxima vez,
quando eu ouvir um assobio daquele pássaro cantante,
esquecerei meu ego ecológico
e usarei um estilingue

para bem te ver
bem te ter
de novo

27.8.07

temperatura

numa madrugada dessas,
quando dormiam galos, gatos e elefantes,
peguei a jaqueta azul-mais-tristeza da gaveta
e vesti meu coração resfriado

analgésico-antitérmico-antibiótico jeito de solucionar o amor

com o requinte de quem deseja uma sobremesa,
abri a geladeira e descansei meu coração ofegante
sobre um pote de morangos em conserva

choque térmico:
é gelo seco agora
um coração que já foi voragem escaldante

13.7.07

ponteiros

acabou a pilha do relógio
que arrastava o tempo entre mim e o [abraço]

o abraço tem nome

restou uma ampulheta à espera de toque e força:
amor às cegas entre antes ponteiros

não quero ser recorte, tampouco molde vazado
se há fim, que não seja da memória
terna e pura

uma palavra, descubro uma palavra ao tropeçar
ao vacilar das pernas

mas não há queda se me sento
se me silencio
enquanto o abraço respira esquecer:

[o tempo que há,
há amor]

RSO