guardo a última lágrima de saudade
como um pássaro guarda o ninho
a lágrima, quero vertê-la em precipício:
profundo
quero que seja precipitada porque ainda é nuvem
quando eu disser adeus,
quando eu alçar voo deste solo,
quando da nossa despedida,
seja você abraço meu
quando me vir pela última vez,
seu guarda-chuva, não o abra
porque serei tempestade
11.4.07
27.3.07
dominante, dominó
já que a regra é o direito
a pedra muda o tom
de preto em branco
a tons de cinza
existem tons que o dominó compartilha
o tom oco da perda
o tom exagerado da disputa
a furta cor do tabuleiro
até quando não se distingue mais o homem do jogo
e a queda é inevitável
a pedra muda o tom
de preto em branco
a tons de cinza
existem tons que o dominó compartilha
o tom oco da perda
o tom exagerado da disputa
a furta cor do tabuleiro
até quando não se distingue mais o homem do jogo
e a queda é inevitável
7.2.07
miragem
ao longe
aquele que é imagem
é homem, é bicho, carnaval
aquele que é confete
é santo, é pranto, vendaval
aquele que é chuva
é curva, é espelho, rio
aquele que sou eu
é canto, é manto, miragem
quando perto,
é miragem
imagem nula
aquele que é imagem
é homem, é bicho, carnaval
aquele que é confete
é santo, é pranto, vendaval
aquele que é chuva
é curva, é espelho, rio
aquele que sou eu
é canto, é manto, miragem
quando perto,
é miragem
imagem nula
30.1.07
encontro
no dia em que eu encontrar Bethânia
quero ser pássaro, cão e lagartixa
quero ser chão, parede e telhado
para que não haja ente potente crente de anulação
no dia em que eu encontrar Bethânia
quero encantá-la para ver se me encontro
naquele canto singular
amanhã,
num dia de chuva, raios e trovões,
num dia de dança de Iansã,
encontrarei Bethânia,
encantarei Bethânia
e ela cantará minha palavra
palavra minha
quero ser pássaro, cão e lagartixa
quero ser chão, parede e telhado
para que não haja ente potente crente de anulação
no dia em que eu encontrar Bethânia
quero encantá-la para ver se me encontro
naquele canto singular
amanhã,
num dia de chuva, raios e trovões,
num dia de dança de Iansã,
encontrarei Bethânia,
encantarei Bethânia
e ela cantará minha palavra
palavra minha
25.1.07
pra qualquer um, dor qualquer
Esta é uma [___________] de dor. Porque dói aqui, dói ali, dói distante. Tenho minha cabeça bem separada do corpo agora. Alguém me estica o tronco a fim de arrancar meu topo. Uma tortura, uma tontura, uma soltura sem tamanho.
Daqui do alto, dói o dente que range. De lá de baixo, doem as cicatrizes do pé pisante em brasas. Corri, corri, corri, mas no final, a queda.
Minha cabeça dói com medo da verdade. Alguém me estica longe para me desprender, como se eu fosse um frango a ser desossado.
Ninguém me entende o tamanho que tenho, ninguém me mede a envergadura das asas.
Algo me diz que opressão é isso:
Uma dor esticada do primeiro ao último osso oco do corpo.
- E ninguém percebe.
Daqui do alto, dói o dente que range. De lá de baixo, doem as cicatrizes do pé pisante em brasas. Corri, corri, corri, mas no final, a queda.
Minha cabeça dói com medo da verdade. Alguém me estica longe para me desprender, como se eu fosse um frango a ser desossado.
Ninguém me entende o tamanho que tenho, ninguém me mede a envergadura das asas.
Algo me diz que opressão é isso:
Uma dor esticada do primeiro ao último osso oco do corpo.
- E ninguém percebe.
8.12.06
resgate
Meus olhos amanheceram mar.
Há uma chuva em mim que não cessa.
Hoje sou somente lágrimas obtusas.
nulidade:
quero um esquema menos pluviométrico
quero arremesso fluvial e destino certo
esta foz,
esta tez molhada
meu rio,
meu brinquedo
[me dê um barquinho]
- pede o poeta úmido
Há uma chuva em mim que não cessa.
Hoje sou somente lágrimas obtusas.
nulidade:
quero um esquema menos pluviométrico
quero arremesso fluvial e destino certo
esta foz,
esta tez molhada
meu rio,
meu brinquedo
[me dê um barquinho]
- pede o poeta úmido
8.10.06
canavieiros
. uma garrafa de cachaça sobre a mesa.
a mão formava uma cuia para melhor pegar a água e limpar o prato ensaboado. sua barriga de encontro com a pia molhava o viço do avental. seus ouvidos disfarçavam não escutar as más palavras que seu marido esbravejava. o garfo tinha tantos dentes. a bucha tinha de ser precisa, limpar minuciosamente. um-a-um, o movimento era quase peristáltico. o marido destilava sílabas tônicas a cada saliva gasta. seus gestos. seus instintos. o copo quase cai de sua mão. o sabão tem dessas coisas, tentava se concentrar como uma oriental. vagabunda. peste. filha do cabrunco. tava se fretando pro homem da esquina. o som era nordestino.
o rádio que só tocava FM, o rádio só tocava
uma colher pedia limpeza circular. o dedinho delicado dela marcava as voltas no metal. água. colher inox. mulher inox. espelho côncavo. porra. que merda é essa? já falei pra tirar essa porra do chão. quer me ver no chão, né, sua nigrinha. a saliva saía como num borrifador. o cheiro de canavial, presente. o cheiro. sabão de coco. a espuma nas mãos. o último talher. uma faca ainda suja de carne. suporte não tinha. tinha mãos e sabão. tinha uma faca e sabão de coco. uma bucha. um talher a ser lavado. deslizar. bucha-sabão-faca. mulher inox. mulher sem suporte. mulher se vira. mulher e faca. mulher.
o rádio tocava Amado Batista
passo-a-passo. pé-ante-pé. bucha. faca. espuma caindo no chão. uma mesa. uma faca. o que é, mulher? o que é? mão e garrafa. faca e mesa. garrafa no alto.
um banho de cachaça. os cabelos presos molhados pelo canavial. o cheiro forte de cana. o rosto molhado. a roupa. o avental. banho. a mulher.
jogou a cachaça sobre a cabeça até que a última gota escorresse aos pés.
limpeza.
o marido desligou o rádio. o marido fez silêncio e foi buscar um pano para secar o chão.
a mão formava uma cuia para melhor pegar a água e limpar o prato ensaboado. sua barriga de encontro com a pia molhava o viço do avental. seus ouvidos disfarçavam não escutar as más palavras que seu marido esbravejava. o garfo tinha tantos dentes. a bucha tinha de ser precisa, limpar minuciosamente. um-a-um, o movimento era quase peristáltico. o marido destilava sílabas tônicas a cada saliva gasta. seus gestos. seus instintos. o copo quase cai de sua mão. o sabão tem dessas coisas, tentava se concentrar como uma oriental. vagabunda. peste. filha do cabrunco. tava se fretando pro homem da esquina. o som era nordestino.
o rádio que só tocava FM, o rádio só tocava
uma colher pedia limpeza circular. o dedinho delicado dela marcava as voltas no metal. água. colher inox. mulher inox. espelho côncavo. porra. que merda é essa? já falei pra tirar essa porra do chão. quer me ver no chão, né, sua nigrinha. a saliva saía como num borrifador. o cheiro de canavial, presente. o cheiro. sabão de coco. a espuma nas mãos. o último talher. uma faca ainda suja de carne. suporte não tinha. tinha mãos e sabão. tinha uma faca e sabão de coco. uma bucha. um talher a ser lavado. deslizar. bucha-sabão-faca. mulher inox. mulher sem suporte. mulher se vira. mulher e faca. mulher.
o rádio tocava Amado Batista
passo-a-passo. pé-ante-pé. bucha. faca. espuma caindo no chão. uma mesa. uma faca. o que é, mulher? o que é? mão e garrafa. faca e mesa. garrafa no alto.
um banho de cachaça. os cabelos presos molhados pelo canavial. o cheiro forte de cana. o rosto molhado. a roupa. o avental. banho. a mulher.
jogou a cachaça sobre a cabeça até que a última gota escorresse aos pés.
limpeza.
o marido desligou o rádio. o marido fez silêncio e foi buscar um pano para secar o chão.
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