4.3.12

sobremesa

a tigela conserva blueberries
para depois

guardadas aos amores,
as frescas frutas em grosso caldo de açúcar
são razão de sobremesa
com colheradas e goles de água
para não enjoar

acima.
abaixo:
e despeja,
brinca com as frutinhas cadentes,
observando os grumos quase azuis que se desprendem
na queda

pedaços da vontade de comê-las,
mas falta o acompanhamento:

um sorvete amante
ou um ente cremoso

fica a escolha,
embora "blueberries,
always" acompanhadas,
haja entre
nossos
morangos
mofados
solitários

1.3.12

paraquedas noturnos ou remédios para dormir

1.
Bombons em papéis coloridos numa bela peça de vidro sobre a mesa de centro. A sala toda quer se caramelizar. TV, sofá, tapete, abajur salivam por aquilo com que só eu me deleitaria. Ser humano é um desperdício quando taxas de glicemia regulam a noite.

2.
Cintos... muitos. As calças caem sem vergonha. Preciso deles. Precisos no apertar. Fartos ao serem afrouxados por mãos estrangeiras. Combinam com os sapatos? Ou com as medidas da cintura? Combinam com desejo. Sinto muito... esse.

3.
Penduricalhos na fiação das ruas. Frutinhas nos galhos. Brincos nas orelhas. Tudo se enfeita na noite que eu não verei mais em 3, 2, zzzzzZZZzzzZZZZzzZZZZ

4.
Romulo, você não me surpreende mais. Está na hora de quebrar os copos, jogar o celular pela janela e sair de cueca sem perceber que os shorts ficaram sobre a cama. Vc usa o mesmo par de All Star azul de que tanto, estranhamente, gostam e citam naquela música. Vidinha feita de lides (O quê? Quem? Quando? Onde?...) e pouco new journalism. Notebooks com widescreen não compreendem um horizonte. Você precisa (o)usar mais (filtro solar). Poupe o papel de pão. E o café da manhã que a Xuxa nunca te deu. Acorda, menino! E ouça a próxima piada sem falso gozo. Yes, yes!

5.
Noite de desejos romantizados depois de fechar textos sobre frutas e contenções de taludes. Existe um abismo entre a realidade e o que existe "Pra sonhar". Cama, aí vou eu! Cansei da vigília.

6.
Vontade de tirar os olhos, e não os óculos, antes de dormir. Deixá-los de vigília sobre o criado-mudo, observando se meu sono é rock ou mantra; MMA ou yoga; jasmim ou crisântemo... E a coragem? Nem pisca.

7.
Álcool é combustível. Urina é refugo. Algumas placas: proibido parar e estacionar. Não há vagas ao redor na Vila Madalena. Blitze. Enfim, 0 km/h. Alívio. "Que a multa e a apreensão da habilitação valham cada ml desta mijada", João pensou.

8.
Canção de ninar: ranger de uma cama no apê ao lado, beijos semitonados, gemidos atonais. E os meus lençóis estão mudos. Nem um "ai".

9.
Um xote a dançar com os pés descalços. Um toque enganado. Pisar. Desculpo-te por não saber o passo. Rodopiar fingindo a pirueta ensaiada. Este baile é de carnaval, e não de debutantes. Frevo, máscaras e confete. Samba-enredo. Alas abertas para que você passe.

10.
Acabo de comer uma pera e me dei conta disto: é como um bom e gostoso beijo na boca. A fruta tem uma textura arenosa, úmida e macia como a de uma língua, com a vantagem de que a abertura da boca é de total controle seu - sabe quando os beijos se encaixam? Dica de presente para mim? Um cesto cheio de peras, tá?

13.1.12

eficácia

quando há papel pautado, me excedo nas curvas de minha caligrafia
mas a liberdade é uma branca folha de sulfite A4
com cinco dobraduras, faço um avião ou um barquinho

agora, me dei conta de que o origami é mais eficaz que a literatura
se o que se quer é fuga

26.12.11

geleia

Jambos,
eu quero jambos de sobremesa;
forjar meus dentes no corpo branco
sob veste de sua cor própria

Quanta morenice tem essa feição
Feitiço, oferenda
Bruxaria do sol

Polpa adocicada
Suave seu suco,
seiva, silvo
Sève serve de perfume:
óleo afrodisíaco para dois

Venha pro banho comigo
Salivo de ver
roupa caindo,
vindo, vendo, tendo

Resquício de intimidade será
um pote de geleia
vazio

8.12.11

dábliu tem som de vê

- alô, você?
melhor teria sido
- olá, wocê!

um wacilo de uma mente em recente inquietude,
uma troca de saudações
em seu nome

o que eu diria se
fosse, realmente, com wocê;
se fosse assunto de seu interesse aquele?

papo reto:
ofereço um texto perspirante,
cheio de pausas para tomadas de fôlego,
wírgulas nos seus dewidos lugares,
transpiração,
e nenhuma wontade de ponto final

meu desejo é que, agora,
wocê fique

14.10.11

p-i-m-a

não vale dizer que toda canção
é sem fim
como amar

os meus refrões
são úmidas mordiscadas na orelha,
excitantes como a espera,
a expectativa,
de que se repitam

afinada cada corda esteja
para as batidas das próximas cifras,
copiadas de uma revista que comprei em um sebo
só porque vi nela a nossa música
- ou prefere que eu dedilhe
tudo de uma vez?

p-i-m-a!

depois que essa moda de viola passar,
restará um tocador desatinado
em posse de um desafinado instrumento

prepare-se:

enquanto você finge que gosta de serenatas,
eu canto músicas de ninar

prefiro a vigília a dois
sobre uma cama de molas
do que uma sonífera
roda de voz e violão
entre amigos sob a lua


às vezes, tenho dessas de errar o acorde

só para sentir que alguém está atento à música
além de mim mesmo,
só para saber que alguém mais
repara nas minhas unhas sem corte


- por favor, não toco Legião;
não insista

- não, não é fácil tocar uma do Roberto
como você pensa
e sua mãe gosta

...

eu, aqui, querendo fazer poema
com um banquinho e um violão
e você pedindo suas composições favoritas


- tenha dó!