18.6.11

poeta sem nariz vermelho

me encomendaram um poema sobre palhaços,
me jogaram no meio de um palco
para fazer sorrir entre cantos,
olhando para a plateia
ansiosa por uma gargalhada

ela vem de dentro, de um lado a outro da boca
pintada de batom,
suada como o nariz rouge no fim do esquete fica
_a palavra definitiva se chama "máscara"
e se apaga com os holofotes
porque "o cara" se esconde sob camadas de pancake;
depois, é cara lavada

improviso, inspiração

o palhaço é uma resposta
que não chega
nunca,
a carta mais esperada na caixa do correio,
um torpedo promocional da operadora de telefonia
no meio da madrugada

tá de brincadeira, né?

fazer sorrir é como ter contas a pagar,
é levar a sério o que nem é preciso
- pensar que o crédito do cheque especial está no fim;
e daí?

a hora mais feliz de um dia inteiro
acontece quando cruzo com ele
- que não sou eu, mas sou outro e eu também -
e soa como uma piada sem fim,
sem pé nem cabeça

o que eu quero com isso?

quero aplausos para um poeta sem graça alguma,
mas um palhaço imerso em melancolia
tentando ser feliz



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*para Fulana e Melão Cólico

30.4.11

check down

fui fazer uma consulta de rotina com um cardiologista

no estetoscópio,
silêncio

17.3.11

imersão

fluido manto de regenerar a vida
parte do mar é aguardente,
outra, sal e chão

canais de sertão esperam a passagem
dos veios adocicados,
dos velhos
Chico, Negro, Tietê

é, para mim, o presente divino
escondido em torneiras

quem pede um copo cheio de água
pede um gole de cru e solene remédio
para um corpo inteiro
se batizar

afinal, nada mais que alma imersa
em eme-eles de líquidos,
sonhos em calefação,
somos nós

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* Texto originalmente publicado em www.colheitaseletiva.blogspot.com, quando eu ainda tinha tempo para escrever sobre fechar torneiras, banhos rápidos e lixo nos mares. Não só no Japão há tsunamis atualmente.

18.2.11

poema sem futuro

Ela
esperava na janela
pelo porvir

Decidiu plantar no quintal de casa
coisas que, finalmente, amadureceriam
e se tornariam rugas e podridão

O futuro é uma exposição
de medos,
cascas grossas,
e sementes esperançosas

"O futuro nunca chega"
_ela se deu conta;
e passou a trancar as janelas
dali para frente

Vez ou outra,
observa pelas frestas da madeira
o que é a inquietação do outro lado da rua:
são crianças brincando de amarelinha

E só.

12.12.10

it gets better

melhora, sim:
é só dar tempo
ao tempo que tiram da gente
enquanto insultam,
espancam,
inundam as ruas de intolerância

eu sou eu
e minha sexualidade
- mas não só ela

faça-me o favor:
espalhe esta notícia;
nunca quis ser o último
(e o único!)
a saber de mim



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É para fazer coro à campanha www.thetrevorproject.org.

8.12.10

sal a desgosto

não tem receita
nem bula
para sarar o bolo de culpas
que se enovelam no estômago

remédio?
ingredientes em falta
para voltar atrás
_só há overdose de dores genéricas
e montantes de claras em neve

provocar vômitos
não cura
a intoxicação

esse modo de preparo
ninguém sabe mais
porque o bolo solou
e o prazo de validade
_escrito em letras minúsculas no vidro cheio de pílulas_
se apagou com o tempo

se arrependimento fosse doença,
eu seria, hoje, um paciente terminal
e faminto

odeio a comida que servem nos hospitais,
mas adoro o soro com que me alimentam na veia;
tem sal na medida

27.11.10

frágil mudança de valores como ovos expostos à queda ou por que ninguém me prova o contrário

troco um pedaço de doce de goiaba
por uma tirinha de Trident

troco brincar de inventar bichos com as nuvens
pelos Trending Topics do Twitter

troco uma tarde inteira deitado na beira do lago do Ibirapuera
por 3 minutos de uma casquinha da Mc Donald's

troco cheiro de suco de maracujá
por mil borrifadas de um bom Dolce & Gabanna pour Homme

troco as estrelas do camping da cidade de Socorro
por uma suíte de hotel 5 estrelas em Dubai

troco pés no chão
por tênis Nike

troco moringas de barro
por uma garrafa térmica Aladdin

troco cofre de porquinho
por conta corrente no Banco do Brasil

troco este estar só
por qualquer paixão capitalista

_e sincera na mesma medida