30.4.11

check down

fui fazer uma consulta de rotina com um cardiologista

no estetoscópio,
silêncio

17.3.11

imersão

fluido manto de regenerar a vida
parte do mar é aguardente,
outra, sal e chão

canais de sertão esperam a passagem
dos veios adocicados,
dos velhos
Chico, Negro, Tietê

é, para mim, o presente divino
escondido em torneiras

quem pede um copo cheio de água
pede um gole de cru e solene remédio
para um corpo inteiro
se batizar

afinal, nada mais que alma imersa
em eme-eles de líquidos,
sonhos em calefação,
somos nós

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* Texto originalmente publicado em www.colheitaseletiva.blogspot.com, quando eu ainda tinha tempo para escrever sobre fechar torneiras, banhos rápidos e lixo nos mares. Não só no Japão há tsunamis atualmente.

18.2.11

poema sem futuro

Ela
esperava na janela
pelo porvir

Decidiu plantar no quintal de casa
coisas que, finalmente, amadureceriam
e se tornariam rugas e podridão

O futuro é uma exposição
de medos,
cascas grossas,
e sementes esperançosas

"O futuro nunca chega"
_ela se deu conta;
e passou a trancar as janelas
dali para frente

Vez ou outra,
observa pelas frestas da madeira
o que é a inquietação do outro lado da rua:
são crianças brincando de amarelinha

E só.

12.12.10

it gets better

melhora, sim:
é só dar tempo
ao tempo que tiram da gente
enquanto insultam,
espancam,
inundam as ruas de intolerância

eu sou eu
e minha sexualidade
- mas não só ela

faça-me o favor:
espalhe esta notícia;
nunca quis ser o último
(e o único!)
a saber de mim



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É para fazer coro à campanha www.thetrevorproject.org.

8.12.10

sal a desgosto

não tem receita
nem bula
para sarar o bolo de culpas
que se enovelam no estômago

remédio?
ingredientes em falta
para voltar atrás
_só há overdose de dores genéricas
e montantes de claras em neve

provocar vômitos
não cura
a intoxicação

esse modo de preparo
ninguém sabe mais
porque o bolo solou
e o prazo de validade
_escrito em letras minúsculas no vidro cheio de pílulas_
se apagou com o tempo

se arrependimento fosse doença,
eu seria, hoje, um paciente terminal
e faminto

odeio a comida que servem nos hospitais,
mas adoro o soro com que me alimentam na veia;
tem sal na medida

27.11.10

frágil mudança de valores como ovos expostos à queda ou por que ninguém me prova o contrário

troco um pedaço de doce de goiaba
por uma tirinha de Trident

troco brincar de inventar bichos com as nuvens
pelos Trending Topics do Twitter

troco uma tarde inteira deitado na beira do lago do Ibirapuera
por 3 minutos de uma casquinha da Mc Donald's

troco cheiro de suco de maracujá
por mil borrifadas de um bom Dolce & Gabanna pour Homme

troco as estrelas do camping da cidade de Socorro
por uma suíte de hotel 5 estrelas em Dubai

troco pés no chão
por tênis Nike

troco moringas de barro
por uma garrafa térmica Aladdin

troco cofre de porquinho
por conta corrente no Banco do Brasil

troco este estar só
por qualquer paixão capitalista

_e sincera na mesma medida

22.6.10

vinte e sete versos refeitos

há anos, venho tentando dissociar
a rima lapidada da força bruta de uma palavra:
uma reinvenção

faço aniversário quando, ao contrário da letra datilográfica,
tenho identidade, tenho nossa caligrafia - minha, sua -
em todos os cartões que recebi

a você, meu convite para
tomar alguns copos,
repartir um bolo recheado,
rever amigos de tanto tempo,
estender as horas além do trabalho,
rir de nossas complicadas histórias
à luz de velas atoladas em brigadeiro;
ao som de palmas, e não palmadas do tempo

marque na sua agenda o dia
cuja noite terá presenças calorosas
em meio a bexigas coloridas,
poltronas pé-palito,
garrafas de tubaína
e meus desejos retrô

desejos do menino-eu que não quer crescer ligeiro,
toma poucos cuidados antirrugas
e promete começar o tratamento contra a calvície
com a mesma verdade de quem inicia uma dieta na segunda-feira

por que este ano seria diferente?
porque, daqui para a frente,
só será refeito o vigésimo sétimo verso deste poema


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Dia 24/06, quinta-feira, a partir das 19h, no Tubaína Bar, estarei à sua espera. É um lugar com preço "quase-justo", ambiente agradável, comida gostosa e cheio de memórias afetivas. Fica na rua Haddock Lobo, 74, Centro - São Paulo, SP. Aceita cartão de crédito e não tem consumação mínima. Mesa reservada em meu nome. www.tubainabar.com.br


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